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..::: Modelos Mentais:






 “Todo o meu saber consiste em saber que eu nada sei...”

Sócrates

Quando Sócrates cunhou sua famosa frase,provavelmente concebera que todo o seu conhecimento não passava de representações parciais ou modelos incompletos da realidade subjacente. Assim como o mapa não é o território e a maquete não é o edifício, os modelos mentais não são a realidade. Eles são apenas uma espécie de “lente cognitiva” através da qual cada pessoa enxerga o mundo da sua maneira. Em última análise, são imagens, conceitos e generalizações que nos permitem transitar com certa desenvoltura no mundo em que vivemos, procurando antecipar o futuro, ainda que de maneira bastante incompleta e imprecisa. Quando compreendemos que todos os conhecimentos que retemos em nossas lembranças não passam de modelos mutilados de uma pequenina parcela da realidade, a exemplo do maior dos filósofos, somos compelidos a reconhecer que, individualmente, não sabemos praticamente nada.
Nós exploramos continuamente o mundo à nossa volta por meio dos órgãos dos sentidos. A cada segundo aportam ao nosso cérebro bilhões de “bits” de informações táteis, auditivas, gustativas e visuais que são decodificadas e processadas. De uma maneira bastante reducionista, podemos comparar o cérebro humano ao winchester de uma moderna filmadora digital que permanece o dia todo ligada, captando ininterruptamente imagens e sons. Por maior que seja a nossa massa encefálica e o número de neurônios e conexões cerebrais, não há “espaço em disco” suficiente para armazenar todas as imagens e informações recebidas. Portanto, são retidas somente informações mais marcantes e representativas, na forma de pequenos “blocos” denominados modelos mentais. Juntando esses blocos, nós somos capazes de construir “maquetes virtuais” de um determinado tema ou objeto e, por analogia, sopesar o contexto em que estamos inseridos.  Existem dois critérios para selecionar as informações e imagens a serem preservadas: em primeiro lugar, tornar-se-ão permanentes as informações revestidas de forte emoção. Todo fato emocionante é um fato inesquecível. Em segundo lugar, ficarão gravadas as informações que forem processadas diversas vezes. Esta é a razão da máxima “la enseñanza es la repeticion”.
Por se tratarem de representações fragmentadas de fenômenos complexos os modelos mentais encerram muitos erros e contradições, devendo ser continuamente revisados aprimorados. Cada indivíduo tem um conjunto exclusivo de modelos mentais, frutos da sua trajetória de vida. No entanto, uma parcela considerável desses modelos é compartilhada pelos membros da sua comunidade. Chamamos a esse pull de informações e conhecimentos de “senso comum”.
Vamos tomar como exemplo de senso comum, um fenômeno recente e em franca expansão nos países mais desenvolvidos: a participação feminina no mundo do trabalho e o reconhecimento da sua capacidade de assumir postos de liderança em quase todos os setores da nova economia.

A charge ao lado, intitulada “Evolução da Autoridade”, ironiza com poucos traços esse fenômeno sócio-cultural. A mensagem implícita é óbvia para todos nós porque temos um senso comum a respeito da evolução das espécies, dos modelos de calçados femininos e masculinos e da nova organização do trabalho. Entretanto, essa figura não faz nenhum sentido para inúmeras culturas humanas.



Da mesma forma, se apresentarmos essa propaganda da Natan para um indígena ou para um esquimó, certamente eles não serão capazes de decifrar a mensagem subentendida. A sua compreensão requer a incorporação de certos conceitos como o valor de uma jóia e o poder de sedução que elas exercem sobre muitas mulheres. Embora seja uma propaganda inteligente, ao contrário da figura anterior, exibe uma conotação bastante depreciativa para com o sexo feminino.

Apenas uma ínfima parcela da nossa atividade mental é dedicada ao pensamento consciente. A maior parte do funcionamento do cérebro é dedicado a atividades inconscientes, inclusive o processamento do senso comum. O senso comum é processado na velocidade da luz, desencadeando respostas atitudinais antes de completarmos uma análise racional mais acurada dos fatos.  Em outras palavras, “começamos a agir antes de acabarmos de pensar”.  Isso é fundamental para a sobrevivência das espécies. Num ambiente hostil, frações de segundo podem representar a diferença entre a vida e a morte.

Ainda que não tenhamos plena consciência dos nossos modelos mentais, eles interferem profundamente na nossa maneira de interagir com o mundo.  Como o processamento e re-configuração do senso comum são automáticos, não notamos as modificações paulatinas que vão ocorrendo em nossos pontos de vista.  Ao longo dos anos, vemos as coisas de maneira tão diferente que custamos a acreditar na maneira como pensávamos ou agíamos num passado tão recente.  “Cada ponto de vista é a vista de um ponto”.  O tempo passa, atingimos um outro ponto da nossa jornada, nossos referenciais mudam completamente e já não somos mais os mesmos. Como disse Alceu Amoroso Lima, nossa vida é uma sucessão de adeuses que damos aos nossos vários “eus”.

Consideramos uma pessoa ajuizada, ou de bom senso, quando ela se comporta acordo com as nossas expectativas, ou seja, de acordo com o senso comum do grupo social a que pertencemos. Porém, precisamos ter sempre em mente que “senso comum” não é o mesmo que “bom senso”!

Vejamos, por exemplo, qual era o senso comum a respeito das medidas de segurança no trânsito no ano de 1965. Vamos analisar uma propaganda que a Volkswagen divulgou em jornais e revistas por ocasião do lançamento do seu primeiro carro com teto solar. O texto publicitário enaltece as vantagens do teto em aço, a sua perfeita vedação contra a chuva e sensação de liberdade que proporciona, encerrando com o conhecido slogan: “Volkswagen, o bom senso sobre rodas”.

Nos dias de hoje, salta aos olhos de qualquer pessoa a insensatez dessa imagem. Mas, por que naquela época ninguém no mundo se deu conta de tamanho absurdo? A resposta é dedutível: porque naquela época o senso comum a respeito de segurança no trânsito era muito precário.  No entanto, embora os nossos modelos mentais tenham evoluído muito em matéria de segurança, temos que considerar que ainda são bastante imprecisos e incompletos, devendo ser constantemente revisados e aperfeiçoados. Tudo que os modelos mentais nos proporcionam são suposições ou fragmentos de verdades. Nunca temos verdades completas, razão pela qual devemos estar sempre abertos às mudanças.

Uma das grandes descobertas da psicologia comportamental foi que qualquer ser humano pode mudar sua vida, mudando suas atitudes. E, se podemos mudar nossas vidas mudando de atitudes, podemos também mudar nossas organizações e, inclusive, o mundo em que vivemos.  No entanto, antes de empreender qualquer mudança, devemos estar cientes de que todas as nossas atitudes são regidas por “modelos mentais”.Todo processo de aprendizagem envolve mudanças de paradigma e o aprendizado social ou organizacional passa por mudanças de modelos mentais do grupo, ou seja, pela construção de um novo senso comum.

Numa organização, qualquer mudança administrativa esbarra em numerosos conceitos (tácitos ou explícitos) profundamente arraigados, que exercem forte resistência às modificações propostas. Um dos papéis mais importantes dos líderes é trazer à tona os modelos mentais da sua equipe para que sejam examinados, desafiados e aprimorados continuamente.

 

Wanderley Pires
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