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..::: O papel das emoções no planejamento do futuro.

 


Planejar significa tornar planos os nossos caminhos para que possamos seguir em frente evitando altos e baixos. Mas, como planejar o futuro se o futuro é um lugar sem estradas? Só existe uma maneira: construí-lo na nossa imaginação e implementar ações cotidianas para remover os obstáculos que forem surgindo ao longo da jornada.

A maior parte das pessoas entende que planejar é uma atividade essencialmente racional. No entanto, ela requer também uma ampla bagagem emocional sendo, portanto, um privilégio das pessoas maduras. Ser maduro, tal qual um fruto, é estar pronto para a função a que se destina e a virtude que melhor denota maturidade é a “prudência”, compreendida como a capacidade de “prever” e “prover”. Por serem imprudentes, as crianças e os adolescentes precisam de alguém experiente para preveni-los dos perigos e prover suas necessidades.

A maior parte dos jovens reluta em “aceitar sacrifícios no presente para alcançar recompensas futuras”. No entanto, quando a vida nos torna mais experientes e com um pouco mais de sabedoria, deixamos de encarar nossas obrigações como sacrifícios. Os homens sábios sentem prazer na re-configuração de si mesmos para suplantar as adversidades de cada dia, pois sabem que isso os qualifica para os desafios do amanhã.

Em 1989, o governo americano proclamou que os anos 90 seriam “a década do cérebro”. Todas as pesquisas nessa área passaram a ter prioridade absoluta e receberam pesados incentivos financeiros. Com isso, num intervalo de apenas 10 anos, aprendemos mais sobre o cérebro e a mente do que em toda a História da Civilização. Para compreendermos melhor o papel das emoções no planejamento do futuro, façamos uma retrospectiva:

Nosso cérebro, evolutivamente, foi arquitetado em 3 andares profundamente interconectados por milhões de fibras nervosas. O primeiro andar, o mais primitivo, é o andar “reptiliano”, responsável pelo controle das funções vitais, reprodução e sobrevivência. O segundo andar, representado pelo sistema límbico, é a sede das emoções. O terceiro e mais recente, denominado de neocortex, é a fonte dos pensamentos e da imaginação.

Agindo em cascata, pensamentos e imagens negativas podem gerar emoções descontroladas que desencadeiam ações “reptilianas” que, muitas vezes, resultam em discussões, confrontos físicos e muito arrependimento. Mas, nem todas as emoções nascem dos nossos pensamentos. Boa parte delas se manifesta antes mesmo de pensarmos, originando-se das avaliações sensoriais inconscientes da realidade que nos cerca.

No andar intermediário do nosso cérebro (sistema límbico) localiza-se uma espécie de “botão do pânico”. Ele é representado por dois pequenos núcleos nervosos incrustados nos lobos temporais direito e esquerdo e, pela sua semelhança pequenas amêndoas, chamados de “amígdalas cerebrais”.  As amígdalas cerebrais estão posicionadas no cérebro de tal maneira que todas as informações coletadas pelos órgãos dos sentidos (exceto as olfativas) são processadas por elas e instantaneamente comparadas o nosso repertório emocional.



Quando acionadas, as amídalas cerebrais mobilizam todos os mecanismos inconscientes de defesa do nosso organismo em poucos milésimos de segundo e começamos a agir instintivamente. Nesse ínterim, completamos uma avaliação racional mais precisa de toda a situação e, se for constatado que era apenas um alarme falso, a região frontal do cérebro começa a emitir sinais para interromper o alerta amigdaliano. A exemplo dos alarmes eletrônicos convencionais, o acionamento do “botão do pânico cerebral” é instantâneo, enquanto que os procedimentos para desativá-lo demandam um certo tempo. Na prática, são aqueles minutos que precisamos esperar para recuperarmos a cor, o coração desacelerar e voltarmos à tranqüilidade, após levarmos um susto qualquer.

As ações impensadas (ou instintivas) representam uma vantagem competitiva para a sobrevivência das espécies. Num ambiente hostil não há tempo para uma análise racional detalhada dos perigos a que estamos expostos. Em muitas situações, se não agirmos mais depressa do que o nosso próprio pensamento, não teremos nenhuma chance de sobreviver. Por isso, as emoções, que podem ser definidas como “impulsos para agir”, assumem o comando das ações e executam o papel que lhes compete.

Há séculos sabemos que, sob forte emoção, o raciocínio lógico fica muito prejudicado. Porém, apenas recentemente descobrimos que as emoções exercem, também, influências positivas sobre a razão, agilizando e aprimorando as nossas decisões “inteligentes”. Agindo diretamente na região frontal do cérebro, hoje denominada área de decisão e planejamento, os pensamentos e emoções trabalham em sinergia para ajudar-nos a fazer as melhores opções a médio e longo prazo. Por ser o único animal que possui a região frontal bem desenvolvida, somente o ser humano é capaz de planejar o próprio futuro.

Enfatizando, o planejamento do futuro não é uma atividade exclusiva da razão. Existem fibras nervosas que conectam as “amígdalas cerebrais” aos lobos frontais, de tal forma que, atuando no andar superior, elas conferem um “tempero emocional” às cenas que desfilam na nossa imaginação. As sensações de prazer ou desconforto que sentimos quando pensamos num determinado assunto, exercem um papel preponderante nas nossas tomadas de decisões.

Quando não tínhamos conhecimento do papel da região frontal, nós a denominávamos “zona muda do cérebro”. Hoje sabemos que ela é a grande responsável por algumas das principais características do processo de humanização.

Procedimentos cirúrgicos ou acidentes que lesam a região frontal, acarretam sérios prejuízos à nossa capacidade de planejamento. Existem na literatura centenas de casos de pacientes com graves lesões na região frontal do cérebro que não sofreram nenhuma variação no seu Q.I., porém, como deixaram de contar com a imprescindível ponderação emocional no processo decisório, sofreram uma verdadeira derrocada em suas carreiras profissionais e nos seus relacionamentos afetivos. É o que sucedeu, por exemplo, com cerca de 40.000 pacientes que foram lobotomizados (leucotomia pré-frontal) no século passado, um procedimento cirúrgico execrável que foi definitivamente banido da prática médica.

As emoções precisam estar presentes em nossas vidas na medida certa, caso contrário elas comprometem muito as nossas escolhas. Metaforicamente, o papel das emoções no planejamento do futuro é como o papel dos temperos na preparação dos alimentos: em excesso ou em falta, põem tudo a perder. Isso reforça a importância do “controle de qualidade” que devemos exercer sobre os impactos emocionais que sofremos todos os dias, pois, já está sobejamente comprovado que eles são incorporados ao nosso “repertório emocional” e, a qualquer momento, serão utilizados como “modelo operacional”.

Todo animal superior pensa e se emociona.  Mas, somente os seres humanos podem conduzir os próprios pensamentos e escolher as emoções que vão sentir. Somente nós possuímos uma consciência reflexiva (autoconsciência) que nos permite identificar os sentimentos negativos e lançar mão de pensamentos inteligentes para elevar o nosso estado de espírito.

Essas descobertas fazem parte do arcabouço científico e filosófico da “Inteligência Emocional”, a teoria que mudou completamente o conceito que possuíamos a respeito de nós mesmos. Não podemos mais nos definir como animais racionais dotados de livre arbítrio! Nós somos animais racionais e emocionais e, como as nossas preferências não exigem inferências, freqüentemente decidimos fazer uma coisa e acabamos fazendo outra. Além disso, como não temos consciência dos mecanismos inconscientes que determinam as nossas condutas, continuamos julgando que decidimos racionalmente, mesmo quando agimos de maneira nada razoável.

Em última análise, a Inteligência Emocional está intimamente relacionada com as nossas habilidades de relacionamento intra e interpessoal. A competência (ou habilidade de relacionamento) intrapessoal reflete a capacidade de relacionamento de cada indivíduo consigo mesmo. Avalia a nossa capacidade de acessarmos os próprios sentimentos e conduzi-los de forma harmoniosa, evitando sobrecargas emocionais e doenças psicossomáticas. Os indivíduos que não cultivarem essas habilidades certamente encontrarão muitas dificuldades pelo caminho.

A competência interpessoal reflete a nossa capacidade de interagir com outras pessoas procurando compreendê-las, descobrindo como aumentar o seu entusiasmo, motivá-las e fazê-las trabalhar juntas de forma cooperativa. Exprime a nossa habilidade de fazer e reter amigos, insuflando sentimentos positivos e aparando as arestas que afloram nos relacionamentos.

A explosão do conhecimento humano aumentou significativamente a nossa relação de interdependência. A época dos grandes inventos realizados por um único indivíduo, como a lâmpada, o telefone, a máquina a vapor etc, já faz parte do passado. As inovações científicas e tecnológicas do nosso tempo são resultantes do trabalho cooperativo de um número cada vez maior de pessoas.

Tarefas mais complexas exigem maior colaboração. Cientes disso, muitas empresas, após uma triagem preliminar fundamentada nos predicados intelectuais e capacitação técnica dos candidatos, estão recrutando aqueles que possuem maior coeficiente emocional. Quem não sabe se relacionar encontra espaços muito restritos para trabalhar no mundo do trabalho moderno. Embora o QI seja fundamental durante a formação escolar, está comprovado que, normalmente, os melhores alunos não se tornam os melhores profissionais. A Inteligência Emocional - QE - é o passaporte para o sucesso! Entretanto, mais do que isso, ela poderá vir a ser o “fio de Ariadne”, com o qual nos guiaremos através dos labirintos profundos da nossa mente em busca do auto-conhecimento e das transformações indispensáveis para a concretização dos nossos projetos superiores

 

Wanderley Pires
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