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..::: Resiliência Humana.

 

A resiliência é um novo paradigma científico e de formação que está se configurando como um verdadeiro “manual de sobrevivência” para o ambiente hostil em que vivemos. Seus conceitos foram desenvolvidos recentemente a partir de conhecimentos empíricos bastante antigos.  Há mais de 5.000 anos os monges indianos já os intuíram quando buscaram uma maneira de se defender dos salteadores. Por possuírem uma compleição física frágil decorrente da vida meditativa e alimentação regrada, eles eram alvos muito visados.  Além disso, pela sua formação religiosa, não concebiam matar nem sequer ferir um adversário, ainda que em legítima defesa. A alternativa foi desenvolver um tipo de luta com a qual pudessem subjugar um oponente maior e mais forte sem emprego de violência, aproveitando a força e o peso dos oponentes contra eles mesmos.


Segundo a lenda, os monges tiveram essa inspiração observando as árvores durante o inverno: eles notaram que os galhos do carvalho, apesar de grossos e resistentes, freqüentemente quebravam sob o peso da neve, enquanto que os galhos do chorão, finos e flexíveis, envergavam, derrubavam a neve acumulada e voltavam à posição original. Assim foi criada a arte milenar de defesa pessoal precursora do jiu-jitsu (arte flexível), cujo princípio fundamental é ceder para vencer.

O chorão, apesar de ser menos resistente do que o carvalho é mais resiliente, suportando com mais propriedade as adversidades de um rigoroso inverno. A palavra resiliência (do latim - “resilio” - re+salio = saltar para trás, dobrar-se, encolher-se) é bastante expressiva para designar esse fenômeno.
Percebendo a importância da resistência e flexibilidade, quase todos os povos procuraram desenvolver essas qualidades tanto em seus guerreiros quanto em seus equipamentos.  As armas de pau e pedra foram suplantadas pelas de cobre e bronze. A seguir estas foram preteridas pelas de ferro que, por sua vez, foram substituídas com vantagem pelas de aço e outras ligas metálicas. 

Eram lendárias a qualidade e beleza das espadas (katana) dos samurais, fruto do esmero e sofisticação técnica com que eles as forjavam. E, tão lendários quanto as suas espadas, foram esses guerreiros: determinados, ágeis, flexíveis e resistentes eles foram praticamente imbatíveis antes do advento das armas de fogo. Temidos e idolatrados, os Samurais escreveram uma página gloriosa na cultura oriental, num tempo em que as armas e os homens eram esculpidos a ferro e fogo para suportar a extrema pressão da barbárie.
Os costumes de hoje são muito diferentes. Em sua grande maioria, a civilização pós-industrial é constituída de homens e mulheres ansiosos, exauridos por tarefas sem fim, que vivem tensos, irritados e cada vez mais insatisfeitos com o seu estilo de vida carente de tempo e vazio de significado.
A velocidade das mudanças do mundo moderno criou um ambiente de insegurança e instabilidade que exige de cada um de nós um estado permanente de alerta e tensão e um esforço contínuo para nos adaptarmos às novas condições.

 Ao longo do tempo, esse estilo de vida estressante compromete nossas defesas imunológicas, configurando-se como o principal responsável por uma significativa parcela dos problemas de saúde que afligem o mundo civilizado.

Existem fortes evidências de que a velocidade das mudanças continuará aumentando por mais algumas décadas. Como não haverá tempo suficiente para desenvolvermos mecanismos genéticos de invulnerabilidade ao stress, a única alternativa para o sucesso é colocarmos os pensamentos conscientes a serviço do equilíbrio emocional e aprendermos a utilizar as experiências adversas para o nosso próprio desenvolvimento. Em analogia a resiliência dos materiais, denominamos esse fenômeno “resiliência humana”.
O stress emocional da vida moderna:
A função do stress é preparar-nos instantaneamente para a “luta ou fuga”. Mas atualmente, via de regra, não ocorre nem uma coisa nem outra. Ficamos estressados imobilizados no trânsito, atolados em dívidas, enredados em compromissos, prisioneiros de armadilhas sociais que todos nós ajudamos a construir.  Mesmo com os nervos à flor da pele procuramos manter o controle emocional, pois somos ensinados desde a infância a reprimir a agressividade natural e utilizar o diálogo para acertar as diferenças.  No entanto, conversas sobre assuntos polêmicos freqüentemente acabam em discussões que aumentam ainda mais a tensão e a ansiedade, prejudicando a nossa capacidade de estabelecer relacionamentos produtivos.
Na sociedade do conhecimento, o principal diferencial competitivo é a capacidade de trabalhar em equipe. Sabendo que o stress, além das doenças que provoca, bloqueia os canais de comunicação que nutrem a criatividade coletiva, as organizações de vanguarda estão criando programas de suporte visando incrementar a resiliência da sua força de trabalho.  Curiosamente, não se trata de um procedimento original.  Em todo o mundo, povos muito antigos empregavam diversos métodos para aumentar a fibra dos seus guerreiros.  Os ameríndios valiam-se de rituais em que se deixavam picar por dezenas de abelhas e serem dependurados por meio de ganchos transfixados na pele.

 O rito de passagem dos meninos Massais para a fase adulta consistia em se embrenhar sozinho na savana africana e matar um leão, valendo-se apenas de escudo e lança. Sabe-se que muitos não voltavam.

Grupos especiais dos exércitos modernos ainda hoje submetem os recrutas a situações extremas para ampliar o seu limite de resistência: passam semanas em florestas dormindo ao relento, comendo larvas, bebendo sangue morno de aves, sofrendo todo tipo de humilhação e provocação por parte dos instrutores com o intuito de aumentar as suas chances de sobrevivência no caso de um combate não simulado.

Nos últimos anos foi desenvolvida nos EUA uma versão adaptada desse treinamento militar destinada a executivos civis. Após assinar um termo de isenção de responsabilidade em caso de acidentes, eles vestem uniformes de campanha e, durante uma ou duas semanas, submetem-se a uma rotina extenuante, passando noites em claro rastejando na lama sob fogo real, submetendo-se a marchas forçadas sob o sol e a chuva, praticando lutas corporais e assim por diante. O objetivo do programa é torná-los mais menos vulneráveisao stress insidioso das batalhas comerciais cotidianas.

No Brasil já existem algumas versões abrandadas desse tipo de treinamento para empresáriosemque são praticadas caça ao tesouro, rafting, arvorismo e outras atividades do gênero, visando canalizar o stress, aumentar a competência emocional, a capacidade de trabalho em equipe e, dentro de certos limites, incrementar a resiliência do grupo. 

Resiliência no contexto evolutivo:
Durante a evolução das espécies que nos antecederam (Homo habilis, Homo erectus, Homo ergaster e Homo sapiens) o desenvolvimento cultural foi suficientemente moroso para ser acompanhado e contrabalançado pela evolução genética.  Há cerca de 40.000 mil anos, a região frontal do cérebro do cérebro humano começou a se desenvolver, dando origem a uma nova sub-espécie: o Homo sapiens sapiens (Homem que sabe que sabe). “Provamos o fruto proibido da árvore do conhecimento e fomos expulsos do paraíso do não pensar”.  Passamos a ter pensamentos sobre os nossos próprios pensamentos e percebemos que a inteligência representava uma tremenda vantagem competitiva num mundo dominado por garras, dentes e músculos.  Com o aumento da capacidade mental produzimos novos conhecimentos que impulsionaram sobremaneira a evolução cultural estabelecendo um enorme paradoxo: “a cultura emerge da ação humana e a ação humana emerge da cultura”. Em outras palavras, o homem tornou-se um produto do meio que ele mesmo produz. Deixamos de ser governados exclusivamente por impulsos instintivos. O destino da humanidade passou a ser fortemente influenciado pelas suas “crenças e convicções”.
Graças à evolução cultural, nós nos destacamos sobremaneira no reino animal. No entanto, continuamos sujeitos ao princípio fundamental da seleção natural das espécies que é a sobrevivência dos organismos melhor adaptados. A expansão do conhecimento humano mudou completamente o estilo de vida das civilizações modernas e a evolução genética não conseguiu acompanhar a evolução cultural.  O Homem contemporâneo não está preparado, do ponto de vista biológico, para suportar a velocidade das mudanças que ele mesmo produz. Essa armadilha evolutiva representaria o fim da humanidade caso a seleção natural não invertesse as regras do jogo, colocando a resiliência no lugar da inteligência como meta para a seleção natural da espécie humana.
Onde está o conhecimento que se perdeu em meio a tantas informações? - indagou o poeta americano T.S.Eliot. Dentre as diversas acepções do conhecimento, certamente ele se referia ao conhecimento holístico, cujo poder de síntese nos capacita a identificar correntes de oportunidades num oceano turbulento de informações desconexas.  De agora em diante, o mundo será dirigido por homens e mulheres de visão abrangente, capazes de selecionar um conjunto de informações precisas a respeito de um determinado assunto, possuir o discernimento necessário para integrá-las criteriosamente aos diversos ramos do conhecimento e tomar as decisões que lhe cabem sem se deixar abater sob o peso da responsabilidade.


Do senso comum à validação científica da resiliência:
 

Grande parte do conhecimento científico da humanidade fez parte do domínio do senso comum d urante séculos antes ser comprovada pela ciência. Os esquimós, por exemplo, sempre souberam que blocos de gelo flutuam na água. Certamente eles ainda não são capazes de explicar o motivo, mas, qualquer aluno do segundo grau aprende que o gelo flutua porque é menos denso do que a água.  Da mesma forma, sempre soubemos que todos os corpos são atraídos pela Terra. Entretanto, tivemos de aguardar milhares de anos até que Newton, intuído pela queda de uma maçã, formulasse a teoria gravitacional.

O conceito de “resistência e flexibilidade” também passou por um lento processo de maturação. Há pelo menos 28.000 anos, os caçadores pré-históricos já sabiam que determinadas madeiras acumulam energia quando envergadas e a devolvem quando recuperam a forma original. Baseados nesse conhecimento empírico, povos muito antigos fabricavam arcos, armadilhas com laços, catapultas etc. Esse fenômeno, contudo, só foi oficialmente incorporado à ciência em 1807, quando o cientista inglês Thomas Young estabeleceu a equação física do módulo de elasticidade, determinado pela razão entre o esforço e a deformidade sofrida por um material (”módulo de Young”).  Em 1972, Silva Jr. empregou o termo resiliência para designar a energia de deformação máxima que um material pode absorver sem experimentar uma deformação permanente.  Em 1995, Grotberg definiu a resiliência como uma capacidade universal que permite que uma pessoa, grupo ou comunidade previna, minimize ou supere os efeitos nocivos das adversidades. Atualmente o termo resiliência, naturalizado pelos profissionais das Ciências Sociais e Humanas, tem sido empregado como uma metáfora para designar a capacidade de uma pessoa resistir com flexibilidade às adversidades da vida, utilizando-as para o seu próprio desenvolvimento.  Infelizmente, porém, as respostas biológicas não exibem uma linearidade de causa e efeito análoga às equações físicas. Enquanto nos materiais resilientes a deformidade é diretamente proporcional à tensão, um animal estressado pode apresentar reações imprevisíveis, às vezes bastante desproporcionais aos estímulos, devido a um fenômeno denominado “irritabilidade”.
A resiliência como um constructo psicológico:
A “resiliência” não é um traço de caráter hereditário que a gente simplesmente possui ou não possui. Ela representa uma faceta proeminente da personalidade humana que engloba pensamentos, comportamentos e atitudes, podendo ser lapidada por qualquer pessoa.  Ela deveria ser incorporada ao conjunto das virtudes como a coragem, a honestidade, a justiça, a humildade, a tolerância e tantas outras que, na definição de Aristóteles, são qualidades adquiridas para a prática do bem.
Infelizmente, qualquer pessoa que se disponha a trabalhar para o bem comum, acaba contrariando muitos interesses particulares e contraindo inimigos inescrupulosos. Quando somos injustiçados, caluniados ou prejudicados de qualquer forma, experimentamos uma verdadeira “revolta interior”, que é um processo fisiológico normal, uma resposta instintiva à ameaça do mundo exterior.
Passado esse primeiro momento de indignação, cuja resposta é estereotipada no mundo animal, os comportamentos individuais são muito divergentes: algumas pessoas aceitam passivamente as adversidades e são chamadas de resignadas. A resignação, no sentido de renúncia, significa desistir de lutar, aceitar a derrota, conformar-se à nova situação. Outras não se conformam: praguejam, resmungam, mas não tomam nenhuma atitude efetiva.  Ficam revoltadas, mas não encontram forças para reagir e acumulam uma emoção extremamente nociva denominada “hostilidade reprimida”. Por fim, um grupo crescente está aprendendo a desenvolver “estratégias de coping” (estratégias de confronto) capacitando-se a lidar com as tensões inevitáveis. Essas são chamadas de resilientes.
A importância da resiliência na velocidade das mudanças:
Nas últimas décadas do século XX, o impacto das mudanças atingiu o mundo corporativo com a fúria de um furacão rompendo os “diques” de segurança e provocando uma enxurrada de incertezas em que só sobrevivem os que conseguem se adaptar rapidamente às novas condições. Qualquer modificação que ocorra em nossas vidas, para melhor ou para pior, gera um estado de ansiedade e tensão que exige correção imediata desse desequilíbrio fisiológico uma vez cessados os fatores estressantes. Um sistema estável não é um sistema que não está sujeito a mudanças. Mudanças são inevitáveis. Um sistema é estável quando é capaz de se reajustar continuamente, proporcionando condições para que todos os seus componentes possam funcionar com máxima eficiência.  Mudanças contínuas exigem adaptações constantes e colocam em alerta permanente o sistema de defesa imunológico. Com o tempo, ele acaba se esgotando, abrindo caminho para inúmeras doenças decorrentes da baixa imunidade que vão de um simples herpes labial até um tumor cancerígeno, ou entra em conflito o próprio organismo provocando diversas patologias de auto-agressão intimamente ligadas ao stress como lúpus, tireoidites, atropatias, alergias etc. 
Não estamos preparados para alterações tão drásticas no nosso estilo de vida e a natureza procura desempenhar o seu papel seletivo, eliminando os menos aptos. A Ciência, entretanto, ao desenvolver mecanismos artificiais de controle das doenças e manutenção da vida, atua em sentido oposto.  Não fosse a descoberta da insulina, por exemplo, e só em Nova York, cerca de 800.000 diabéticos seriam rapidamente eliminados pelo processo de seleção natural.  Como não haverá tempo hábil para nossos mecanismos de defesa evolutivos se manifestarem, a solução que se apresenta é desenvolvermos processos conscientes comportamentais e atitudinais de combate ao stress.
As sociedades contemporâneas mais desenvolvidas são aquelas que compreenderam que as crianças constituem seu mais importante “recurso natural” e investiram pesadamente uma parcela substancial do PIB em educação, a exemplo da política adotada recentemente pelo Japão e pela Coréia do Sul.  A resiliência desenvolve-se a partir das relações que as crianças estabelecem com o meio. Nos países do primeiro mundo já se tornou uma prioridade educá-las para suportarem as incongruências do novo modelo social. A comunidade internacional sensível à necessidade de promover a resiliência tem realizado inúmeros estudos, dentre os quais se destaca o International Resilience Project (IRP) envolvendo poderosas organizações como a ONU, a Unesco, World Health Organization (WHO), a International Childrens’ Center (ICC) e a Bernard van Leer Foundation. O principal objetivo desse estudo envolvendo 30 países é averiguar como a resiliência se desenvolve para propor mudanças no currículo escolar no sentido de formar jovens mais equilibrados e bem preparados para intervir na sociedade de maneira positiva.
A “engenharia robusta” do ser humano:
A disputa no meio industrial pela preferência dos consumidores passou a exigir produtos que além de beleza e originalidade, possuam confiabilidade, resistência e custos reduzidos de manutenção.
Na década de 60, os japoneses desenvolveram o conceito de “engenharia robusta” para enfrentar a posição de liderança dos americanos no mercado automotivo. Fundamentados nesse novo conceito, os carros japoneses começaram ser projetados e construídos de tal forma que a sua garantia pudesse ser estendida para três anos, com custos de manutenção tendendo a zero nesse período. O sucesso comercial ultrapassou as expectativas dos próprios japoneses e quando as empresas americanas tentaram acompanhar esses prazos, tiveram prejuízos de bilhões de dólares com despesas de manutenção dos seus produtos na fase de garantia. A solução foi adotar as técnicas de “engenharia robusta” dos japoneses. Entretanto, isso demanda algum tempo, muito treinamento e, o que é mais difícil, mudanças de paradigmas na mente dos engenheiros e operários da indústria automobilística americana.
Os conceitos de engenharia robusta estão se disseminando por todo o mundo, envolvendo a fabricação dos mais diversos produtos e equipamentos. Atualmente, as empresas de vanguarda estão percebendo que para preservar o seu potencial de inovação e criatividade, precisam promover uma verdadeira “engenharia robusta do seu capital humano”, tornando-o mais resiliente.
Na rota da resiliência:
O stress da vida moderna pode ser provocado por inúmeras causas como a morte de uma pessoa querida, compromissos inadiáveis, separação conjugal, dívidas, educação dos filhos etc. Assim sendo, a fórmula para aumentar a resistência e flexibilidade deverá ser bastante abrangente.  A busca da resiliência é uma jornada de conscientização e mudanças de atitudes e comportamentos.  Nós somos o que repetidamente fazemos, disse Aristóteles.  A excelência em qualquer atividade não é o resultado de um feito isolado e sim de um conjunto de hábitos incorporados à nossa maneira de viver.
Cada ser humano é o resultado de um conjunto único de experiências passadas e possui um projeto existencial exclusivo. Por esse motivo, só cabem recomendações gerais àqueles que desejam empreender uma viagem reflexiva em busca de si mesmos visando qualificar-se para os desafios do amanhã por meio de modificações abrangentes no seu estilo de vida.  As dificuldades que surgirem ao longo do caminho terão que ser superadas individualmente com equilíbrio e discernimento.
Vivemos num ambiente de incertezas. Acabou-se a política de pleno emprego, a segurança da aposentadoria, a estabilidade nos relacionamentos. É tolice remar contra a corrente. Precisamos admitir que as mudanças fazem parte da vida. Aceitar com naturalidade as coisas que não podemos modificar ajuda-nos a concentrar a atenção nos problemas cujas soluções estão ao nosso alcance. 

Há cerca de um século, invenções tão significativas como a lâmpada, o carro, o avião, a máquina a vapor etc., foram realizadas por um único indivíduo.  Hoje ninguém faz mais nada sozinho! O grande ícone da sociedade pós-industrial é a criatividade coletiva. Cada um de nós pode ser comparado a um pequenino nó de uma imensa rede de relacionamentos.  A habilidade de fazer e reter amigos guarda relação direta com a nossa capacidade de suportar as pressões da vida moderna.


A sensação de incompetência é uma das maiores fontes de stress.  Com o aumento exponencial do conhecimento humano, os diplomas tornaram-se produtos perecíveis. Assim como os guerreiros samurais estavam sempre apurando as suas técnicas de combate, precisamos aprimorar continuamente as nossas competências essenciais para o aumento da autoconfiança, uma característica marcante das pessoas resilientes.
A vida em sociedade acaba sendo fragilizante ao colocar quase tudo ao alcance das mãos: comida abundante, ar condicionado, transporte, controles remotos, distrações permanentes. O conforto excessivo reduz a nossa capacidade de lidar com os percalços do caminho e pequenos contratempos como um pneu furado, um congestionamento, a perda de um emprego, o fim de um relacionamento amoroso etc., podem parecer problemas incontornáveis. O homem civilizado precisa testar e ampliar seus limites, criar seus próprios desafios: entrar em contato com a natureza, acampar, correr, nadar, escalar, lutar, passar um pouco de frio, calor, sede e fome. A exposição voluntária a qualquer tipo de desconforto aumenta a nossa resistência física e psicológica.  Além do mais, os exercícios físicos ajudam a canalizar as tensões inevitáveis do dia a dia, impedindo que o stress se acumule e comece a gerar reações desproporcionais aos estímulos. 

Na maioria das vezes, o stress do homem civilizado não é propriamente a sua própria realidade e sim a maneira como ele a interpreta. Nós não podemos evitar a ocorrência de eventos estressantes, mas podemos mudar a forma como reagimos a eles, interpretando de maneira positiva os acontecimentos que nos envolvem.

Precisamos prestar muita atenção nas pequenas escolhas de cada dia. São elas que ao longo da nossa jornada determinam se vamos ou não ser bem sucedidos. Os animais vivem instintivamente, reagindo aos seus impulsos inconscientes. Nós somos livres para optar. Quando cedemos a um determinado impulso sem uma ponderação lógica somos reativos.  Quando experimentamos um determinado impulso, avaliamos as conseqüências e fazemos uma escolha consciente lúcida, somos proativos. Opções envolvem renúncias! Considerando-se que um homem não é grande pelo que faz e sim pelo que renuncia (Albert Schweitzer) o discernimento e a disciplina são ferramentas fundamentais no desenvolvimento da resiliência.
Evite o excesso de exteriorização.  O silêncio, a meditação e qualquer prática espiritual renovam a esperança. As pessoas conectadas com uma realidade transcendente tornam-se muito mais resilientes.  Reserve algum tempo para estar consigo mesmo, procure descobrir o propósito maior da sua existência e concentre-se nele.  Viktor Frankl, durante o período que esteve encarcerado num campo de concentração alemão durante a Segunda Grande Guerra, constatou que os prisioneiros que possuíam um “sentido na vida”, ainda que fossem fisicamente mais frágeis, tinham mais chances de sobreviver.  Uma vida rica de significados nos torna muito mais resilientes. 

De vez em quando é importante fazer uma pequena pausa e olhar para trás. Quanto mais pra trás a gente olha mais adiante a gente enxerga, dizia Churchill.  Precisamos aprender com o passado. Experiência não é o que acontece com a gente e sim, o que a gente faz com aquilo que acontece com a gente (Aldous Huxley).  A experiência particular é uma excelente professora, mas ela cobra muito caro por aulas individuais.  Aprender com os erros e acertos dos outros evita muito sofrimento e desperdício de tempo e dinheiro.

Sabemos que a insatisfação é a alavanca do progresso.  Não fosse essa característica peculiar do ser humano e, provavelmente, ainda estaríamos morando em cavernas.  Mas, como desejar intensamente sem ficar ansioso e sofrer as conseqüências do stress?  O segredo é não desejar para si mesmo.  Quando desejamos para os outros não sentimos ansiedade alguma.  A nossa recompensa deve ser uma conseqüência dos benefícios que proporcionamos aos demais. Além disso, quando manifestamos a nossa alegria com o sucesso dos nossos companheiros deixamos de representar uma ameaça para eles.  Esse é uma das grandes peculiaridades do trabalho em equipe e da construção de empresas resilientes. 

Esses são os passos iniciais na busca da excelência por meio do aprimoramento das nossas virtudes.  A partirdesse ponto cada qual deve seguir sua própria jornada.  Mas que caminho seguir frente a tantas opções?  O caminho não importa - respondeu o mestre D. Juan ao seu discípulo Castañeda – todos conduzem ao mesmo fim. Escolhe, portanto, o caminho do amor.  As emoções são impulsos para agir.  Quando somos motivados pelo medo, pela raiva, pelo ciúme, pela inveja ou qualquer outra emoção negativa, nossas forças rapidamente se esvaem e nos sentimos desgastados. As pessoas motivadas pelo amor tornam-se muito mais produtivas, inovadoras e resilientes.

Wanderley Pires
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